INTRODUÇÃO

O projeto Hominis Aqua, desenvolveu-se em Rabo de Peixe, sendo parceiros a Associação de Pescas de Rabo de Peixe (APRAP), o Clube Naval de Rabo de Peixe (CNRP) e a Direção Regional da Juventude (DRJ). O projeto tinha como objetivos integrar jovens em risco de exclusão social através da prática de desporto, promover junto dos jovens o gosto por atividades artesanais, como meio de catalisar o empreendedorismo jovem, e integrar jovens oriundos da “Terra” e do “Mar”.

Os objetivos foram definidos tendo por base os seguintes pressupostos:

● Considerando que a vila de Rabo de Peixe continua a ser, após os Censos de 2011, a freguesia mais populosa dos Açores, com 8883 habitantes, tendo crescido 19,9% na última década (Moniz,2011). Por sua vez, é também o local onde os agregados familiares são maiores, com uma média de 4,18 pessoas por família (Moniz, 2011). Acker (1990, p. 152) menciona que é habitual “dizer-se que Rabo de Peixe é a povoação mais pobre de Portugal”, mas que também é uma terra de contrastes sociais: “Rabo de Peixe é uma povoação pobre e rica. A pobreza e a riqueza não são compatíveis, encontram-se antes uma ao lado da outra como metades diferentes da mesma sociedade” (Acker, 1990, p. 161).

● Considerando que o concelho da Ribeira Grande é o concelho mais jovem dos Açores, que apresenta a taxa mais baixa de envelhecimento da população em todo o país. Este facto também se poderá dever parcialmente à dinâmica demográfica da vila piscatória de Rabo de Peixe, que para além de ser a mais populosa do concelho e da região, com 8883 habitantes, também apresenta uma estrutura etária bastante jovem e um baixo índice de envelhecimento, um ponto forte para o desenvolvimento social e comunitário da localidade em termos populacionais (Salvador & Marques, 2008).

● Considerando que Rabo de Peixe é uma terra de contrastes, entre homens da terra e homens do mar e que num estudo de Correia (2007), os jovens pertencentes ao grupo dos “lavradores” parecia mais predisposto a uma mudança social, pois manifestavam o desejo de prossecução de estudos, com o objetivo de seguirem profissões distintas das dos pais.

● Considerando que as jovens do grupo dos “pescadores” tencionam ser domésticas e os jovens anseiam seguir a ocupação dos pais.

● Considerando que Rabo de Peixe também é um local onde se assiste a múltiplas ocorrências de abandono escolar juvenil motivado pela falta de interesse familiar pelas atividades letivas e pela valorização do universo feminino ligado ao contexto doméstico.

● Considerando que outras jovens abandonaram os estudos porque os pais não queriam que estas fossem alvo das “provocações” dos rapazes, ou porque os namorados valorizavam a constituição de uma família em idade mais precoce. O resultado destes padrões é que muitas jovens estão atualmente a reingressar na vida ativa, quer a nível profissional, quer a nível escolar, por não o terem feito previamente como seria esperado.

PROMOTORES

CLUBE NAVAL DE RABO DE PEIXE
Fundado em 2001, o Clube Naval de Rabo de Peixe tem como missão dinamizar a náutica de recreio na comunidade de Rabo de Peixe, promover atividades marítimo turísticas em todo o concelho, promover políticas de boa gestão educação ambiental, com especial relevo, ser catalisador de mudança social interagindo com a comunidade local de forma a promover a boa cidadania.
Para tal, o Clube conta com uma direção dinâmica, com experiência no associativismo, que, seguindo uma política de integração com as restantes forças vivas da Vila, tem envidado esforços para desenvolver atividades, para os mais de trezentos praticantes, tais como: a natação, a hidroginástica, o bodyboard, a canoagem, as atividades subaquáticas – escola de mergulho, apneia e caça submarina, bem como outras atividades, como o zumba ou o fitness que, pese embora sem caráter competitivo, também fazem parte da oferta do clube aos seus associados potenciando práticas desportivas para adultos.
Assim, as sinergias geradas a partir das boas práticas do associativismo, com um quadro de mais de 20 colaboradores em regime de voluntariado, e do sentido de missão dos seus dirigentes, em conjunto com a atividade desportiva, que não só promove a saúde, mas também os valores sociais, em muito contribuirão para a tão desejada mudança social, bem como para o desenvolvimento da náutica de recreio na costa Norte.

ASSOCIAÇÃO DE PESCAS DE RABO DE PEIXE
A Associação de Pescas de Rabo de Peixe, constituída em 19 de agosto de 2011, tem como objeto, a defesa dos interesses dos armadores e pescadores, através da formação de ativos, do apoio administrativo nas áreas de direito, contabilidade, fiscalidade e recursos humanos, bem como da promoção de novas áreas de negócio, complementares à pesca. Ao longo dos últimos quatro anos tem crescido o número de armadores a inscreverem-se na associação, registando-se à data 30 associados nas suas fileiras.
Em 2017 os quadros da associação contam com 3 administrativas, um trabalhador de serviços gerais e dois de limpeza de portos de pesca.

PARCEIROS

DIREÇÃO REGIONAL DA JUVENTUDE
A Direção Regional da Juventude é o departamento do Governo dos Açores responsável pela execução das políticas públicas dirigidas para a juventude açoriana. Esta parceria contribuiu para a criação de respostas em rede, rentabilizando as respostas existentes envolvendo recursos técnicos.

DESENVOLVIMENTO

O projeto previa atividade para 25 Jovens (10-30 anos) em situação de risco social, sinalizados pela Comunidade Escolar e local. Foram integrados nos núcleos de Canoagem, Surf, Bodyboard e Natação do Clube Naval inicialmente 23 jovens com idades compreendidas entre os 12 e os 25.

Captação Surf e Bodyboard – Terminaram o projeto 8 jovens, que atualmente praticam com assiduidade as aulas.

A frequência à formação em artesanato ao longo destes dois anos – quer em construções em madeira, quer em têxtil -, permitiu a 6 jovens um contato permanente com estas formas de criação de rendimento alternativo à atual atividade que os seus agregados familiares desenvolvem ( pesca ) Terminaram o projeto 2.
Formação Artesanato
Frequentaram as aulas da Escola de Música da Filarmónica 4 jovens, tendo finalizado o projeto apenas 3. As aulas de gastronomia iniciaram-se com 8 interessados que frequentaram durante alguns meses. Nenhum jovem terminou o projeto.
Aula de Gastronomia
Verificamos, assim, que apesar de inicialmente o projeto ter conseguido captar cerca de 50 jovens e de ter conseguido superar a assiduidade prevista inicialmente (25 jovens), assistimos a uma redução do número de participantes ao longo do projeto, tendo finalizado cerca de 50% – 13 jovens. Dos 13 jovens de terminaram, registe-se que 60% estavam ligados aos núcleos de desporto.

Metodologia aplicada
Ao longo de todo o projeto, foram sempre desenvolvidas atividades de captação dirigidas aos jovens definidos como público alvo.
Atividades relacionadas com o Artesanato (Madeira e Têxtil) conseguiram captar inicialmente alguns jovens, bem como a Gastronomia (pela novidade), mas foram as atividades desportivas que conseguiram atrair maior atenção dos jovens, bem como garantir frequência assídua às sessões de formação.
Em todas as nossas comunicações foi sempre referenciado o apoio ao projeto por parte da DRJ

No decorrer das ações de formação, os formadores/treinadores tiveram sempre presente a preocupação de transmitir a principal mensagem (lema) do projeto – “Temos de seguir regras e combater os vícios”.
Para tal, a metodologia utilizada nas aulas passou pela partilha de conhecimento na área da respetiva atividade, mas acima de tudo forma sempre aproveitados vários momentos das aulas para promover:
– a integração de todos os alunos/formandos/atletas
– a potenciação do espírito de equipa
– a constante reflexão e consciencialização do mal que fazem as drogas e o álcool
– a sensibilização ambiental
– a troca de experiências (trocaram os núcleos)
No início do projeto, os formandos/atletas tiveram oportunidade de experimentar, em sistema de rotatividade, as várias ofertas (atividades). Verificamos que nos primeiros dois meses, a frequência a todos os núcleos manteve-se normal. A partir desta altura, apenas as atividades desportivas mantiveram a assiduidade desejada, bem como o interesse.

ANÁLISE CRÍTICA
Os objetivos propostos pelo projeto “HOMINIS AQUA” foram atingidos, pese embora apenas 50 % do público-alvo tenha finalizado o projeto. Conseguimos combater a exclusão social integrando jovens em situação de exclusão através do desporto (nos núcleos de promoção e competição), apoiando iniciativas que visavam a potencialização de novas áreas de negócio complementares à pesca (artesanato) lançamos a semente para melhores “colheitas”. Apostando no incentivo à formação dos jovens e adulto, como foi o caso das mostras de artesanato – construção de barcos de madeira e artesanato têxtil – potenciamos a inclusão de jovens filhos de pescadores (homens do mar) e filhos de lavradores (homens da terra). A diversidade de atividades apresentadas permitiu juntar as atividades conjuntas, como por exemplo a Pequena Orquestra da Banda Filarmónica, jovens com ligações ao mar e à terra. A metodologia aplicada permitiu não só a partilha de experiências entre jovens da mesma comunidade que vivem distanciados pelas diferenças na educação recebida, bem como, retirar o foco de atenção, destes jovens, em comportamentos desviantes, através da possibilidade de contatos com novas experiências, evitando os espaços virtuais (telemóveis), trabalhando em grupos organizados.

No Festival do Caldo de Peixe demos especial destaque às atividades desenvolvidas pelos intervenientes no projeto, inclusive aos monitores, que prestaram serviço ao projeto sem qualquer custo
Finalizamos o projeto no Jantar de Natal de 2017, onde foram expostos os trabalhos realizados ao longo do projeto, atuaram os jovens que foram integrados na escola da Música da Filarmónica Progresso do Norte, e formam reconhecidos alguns atletas.

A participação destes jovens no projeto possibilitou:
– o contato com outros jovens sem distinção de gênero;
– a integração e contato com novas realidades urbanas;
– aprofundaram o conhecimento sobre o Artesanato local e as ruas raízes tradicionais;
– a apreensão de valores como, a disciplina necessária para frequentar atividades de grupo organizadas, o espírito de equipa e o respeito pelo próximo
Ao longo do projeto, os vários formadores intervenientes no processo foram partilhando experiencias e informação, potenciando aos jovens a possibilidade de experimentarem/trocarem de formação (músicos a praticar desporto e vice-versa), o que contribuiu para a inclusão dos jovens com maior facilidade.
Na dimensão desportiva, possibilitamos o intercâmbio entre os vários núcleos do clube. Após a experiência, os jovens definiram o núcleo ao qual pretendiam pertencer.

RECEITAS DO PROJETO

Tendo em conta a oferta desportiva do clube, e como já verificamos no ponto 6 – Análise Crítica -, que a procura por desporto foi maior que a registada pelos ateliers de Artesanato ou Gastronomia -, pela que a coordenação do projeto foi efetuando alterações à estrutura da execução financeira, alocando valores cabimentados para o pagamento de horas aos treinadores, à aquisição de equipamentos desportivos, necessários ao desenvolvimento do projeto.

Conclusão

A seleção do público alvo, baseada na literatura existente, bem como no conhecimento empírico dos organizadores do projeto, revelou-se bastante profícua. A metodologia aplicada também permitiu aferir que através da participação em atividades do seu interesse os jovens envolvidos são capazes de assimilar conhecimento e valores.
No decorrer do projeto, tivemos como preocupação a máxima flexibilidade no encontrar a atividade que possibilitasse a maior integração possível de jovens e desde cedo registamos a preferência dos jovens pelas atividades desportivas. Muito poucos chegaram ao final das atividades de artesanato e gastronomia. Pelo contrário, os que aderiram aos núcleos desportivos transformaram-se em atletas de natação, bodyboard, surf e canoagem.
Em suma, as atividades desportivas de promoção, ou seja sem carater competitivo, constituem-.se como um veiculo de excelência na integração de jovens em risco, tendo em conta que, o foco principal da atividade não será inicialmente o competir (condições físicas e técnicas), mas antes a preparação do atleta como pessoa, apelando ao espírito de equipa, á disciplina e ao compromisso, pelo que o desporto será sempre o veículo mais consistente para “transportar” os jovens para longe de comportamentos desviantes.
Uma vez que o projeto tem cariz social, não foram apresentadas despesas com honorários dos treinadores de Vela e Surf, por decisão dos mesmos. Os formadores de artesanato também assim o fizeram.

Demonstrando altruísmo, os treinadores e formadores ofereceram os seus préstimos, desde que os valores afetos ao seu pagamento revertessem para a aquisição de material necessário ao projeto (em 2017) e que permitisse a sua continuidade, ou seja, o material poderá ser utilizado por jovens carenciados, fora das atividades competitivas, numa perspetiva de inclusão.

Desta forma, e tendo sempre presente que jovens de hoje são os homens de amanhã, é entendimento do Clube Naval de Rabo de Peixe que os resultados do projeto são positivos e que no ano de 2018 deveria ser dada continuidade ao trabalho desenvolvido com os jovens, focando o projeto as atividades de caráter desportivo, nomeadamente: os núcleos de promoção e captação de Vela, Canoagem, de Bodyboard/Surf, Natação e Apneia.